A sobreviv�ncia de Fl�vio na era do p�s-esc�ndalo

A sobreviv�ncia de Fl�vio na era do p�s-esc�ndalo

Alguns anos atrás, seria impensável que um candidato a presidente pudesse sobreviver à profusão de escândalos que atingiu Flávio Bolsonaro. Basta lembrar de que presidenciáveis e candidatos, no passado, caíram por muito menos. Em 2002, por exemplo, Roseana Sarney despontava como alternativa do então PFL à Presidência quando a Polícia Federal encontrou R$ 1,34 milhão em dinheiro na Lunus, empresa dela e do marido. A apreensão, as explicações sobre a origem dos recursos, a queda nas pesquisas e a pressão do próprio partido levaram à retirada da candidatura. Se em 2016, o dicionário Oxford elegeu "pós-verdade" como a palavra do ano, dez anos depois vale perguntar se agora estamos entrando na era do pós-escândalo: uma situação em que denúncias graves se acumulam sem maiores consequências para o acusado –tanto em termos de apoio popular como de lideranças políticas. Se esse é o caso, o que mudou? Primeiro, a fragmentação do consumo de informação dificulta que uma denúncia adquira autoridade compartilhada. O Brasil é um dos países que mais se informa por redes sociais, em especial Instagram e WhatsApp. Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, um terço dos entrevistados brasileiros afirma recorrer a criadores no consumo de notícias. Ou seja, é post da influencer de "lifestyle" que de repente decidiu falar sobre o Banco Master, ou vídeo de canal de receitas que recebe um político –sem checagem de fatos ou contestação. No passado, a estrutura de informação política era organizada de tal modo que um escândalo suficientemente grande seria repetido na mídia tradicional com pouca variabilidade entre veículos, forçando as elites políticas a reagirem. Hoje, a informação sobre um mesmo escândalo aparece de vários modos possíveis que podem neutralizá-lo: perseguição, seletividade, conspiração ou comportamento habitual de todos os políticos. Segundo, a polarização afetiva permite reconhecer a transgressão e continuar apoiando seu autor —quando a alternativa parece muito pior. Um pequeno teste ilustra bem esses efeitos: pergunte a alguém próximo qual escândalo ou revelação seria necessário para fazer com que ele ou ela não vote em seu candidato. Em conversas informais com pessoas de campos políticos opostos, bem informadas e politicamente sofisticadas, encontramos dificuldade em estabelecer esse limite. Quando o que está em jogo é grande demais, a reprovação moral pode até existir, mas perde força para orientar a decisão política –mais importante é a derrota do outro. E isso é péssimo para a democracia, pois atores políticos irão aproveitar que não há maiores consequências para se locupletar à luz do dia e se envolver em todo tipo de tramoia –de exploração sexual à roubo de ilhas. A democracia se enfraquece quando partes expressivas da sociedade, entre cidadãos, lideranças e até instituições, exigem integridade de adversários e oferecem aos seus uma proteção sem limite conhecido. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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