"Um povo clamou…" Estas são as palavras de Sándor Márai, um dos maiores escritores e poetas húngaros do século 20, que viveu no exílio na época da Revolução Húngara que eclodiu em 23 de outubro de 1956 e sua repressão. Há 70 anos, o povo húngaro se rebelou contra a opressiva ditadura comunista e enfrentou todo o império soviético, pois buscava liberdade e independência. Nossa revolta durou dez dias gloriosos; o mundo observava com a respiração suspensa até que as tropas soviéticas esmagaram cruelmente a revolução. Foi nesses dias que surgiu o símbolo icônico da Revolução Húngara: a bandeira com um buraco. Os revolucionários de Budapeste recortaram do estandarte o brasão de Rákosi —com a foice e o martelo— e seu exemplo se espalhou rapidamente por todo o país. Durante os protestos e os confrontos armados, milhares de pessoas sacrificaram suas vidas pela liberdade. Após a repressão da revolução, dezenas de milhares foram presos e mais de 200 pessoas foram executadas, entre elas algumas que mal tinham completado 18 anos. Além disso, mais de 2% da população da época, cerca de 200 mil pessoas, fugiram do país. Quase não havia família que não tivesse sido afetada pela revolução. Por quase 35 anos, só se podia falar das vítimas e dos exilados em voz baixa, mas sua memória nunca caiu no esquecimento. O título do poema citado no início do artigo é "Do céu, o Anjo". O amargo trágico de Márai naquele período era compreensível, já que a situação da Hungria após a revolução reprimida parecia sem perspectivas. Ao mesmo tempo, quando vista sob uma perspectiva histórica, a revolução e sua repressão brutal foram o prelúdio de algo muito maior. Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Na verdade, em 1956 a nação húngara deu exemplo ao mundo, e o impacto moral da revolução foi sentido em todo o planeta. O ano de 1956 não foi importante apenas para nós, húngaros. É a experiência da revolução que mais nos une ao mundo; sabemos que grande parte do mundo vibrou junto com a revolução. É exatamente por isso que o dia 23 de outubro não é apenas uma data para os húngaros: trata-se de uma comemoração da solidariedade mundial, a data das lutas pela liberdade na Europa Central, a festa daqueles que ainda hoje lutam pela sua sobrevivência. É o dia daqueles que rejeitam a opressão, a tirania e o arbítrio. O ano de 1956 ficou gravado na memória moral do mundo. Mostrou que uma revolução pode ser reprimida e, ainda assim, mudar o curso da história, bem como que o anseio pela liberdade é mais forte do que prisões, execuções, exílio e silêncio forçado. A liberdade que a Europa Central desfruta hoje não começou em 1989. Suas bases foram lançadas 33 anos antes, nas ruas de Budapeste. Uma parte significativa da comunidade húngara no Brasil, que conta com cerca de 100 mil pessoas, chegou aqui como refugiada após a repressão da revolução. Temos uma dívida de gratidão com o Brasil, pois foi necessária a boa vontade das pessoas que aqui viviam para que os refugiados húngaros pudessem prosperar. Essas pessoas recém-chegadas, na maioria das vezes sem posses, retribuíram essa generosidade com trabalho árduo e integração bem-sucedida. Entre elas surgiram empresários influentes, figuras estimadas da vida cultural, escritores, artistas e empreendedores. Eles reconstruíram suas vidas e criaram comunidades prósperas, enriquecendo ainda mais a diversificada sociedade brasileira. Em Nova Friburgo encontra-se o único monumento húngaro da revolução de 1956 no Brasil. Foi uma experiência emocionante, por ocasião do 70º aniversário, depositar uma coroa de flores no relevo recentemente restaurado, erguido em memória dos jovens heróis. Ao longo dos últimos 70 anos, o mundo mudou muito. A Hungria e a Europa Central estão novamente livres e prosperam. As relações entre a Hungria e o Brasil estão se desenvolvendo de forma positiva, e a segunda e terceira gerações de húngaros no Brasil vivem felizes, com a memória da Revolução Húngara em seus corações —memória essa que, entre inúmeros outros laços, continua a nos unir.
A Revolu��o H�ngara e a luta pela liberdade
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