Escrevo a coluna antes do segundo turno presidencial. O nível de incerteza é elevado. Entre os eleitores, porém, a dúvida sobre o futuro convive com a convicção de que seu candidato vencerá. O que acontece quando a certeza da vitória encontra a experiência da derrota? Uma pesquisa de Seth Warner —Partisan Wishful Thinking in Polarized Times— oferece pistas. Analisando pesquisas eleitorais americanas entre 1952 e 2024, o autor documenta o crescimento do wishful thinking: a tendência a transformar preferência política em expectativa de vitória. Em 2024, quase 9 em cada 10 eleitores esperavam o triunfo do candidato preferido. As expectativas não são impermeáveis à informação: candidatos à frente nas pesquisas são considerados mais propensos a vencer. Mas o favoritismo atribuído ao próprio campo excede o que os indicadores justificariam. A maior fidelidade eleitoral aos partidos e a crescente aversão ao adversário ajudam a explicar essa evolução. O achado mais relevante envolve a direção dessa relação. Entrevistas repetidas com os mesmos indivíduos, nas eleições de 2016, 2020 e 2024, mostram que a animosidade anterior prediz expectativas partidariamente enviesadas depois. Há também indícios do movimento inverso: entre os derrotados, expectativas frustradas podem ampliar a hostilidade ao outro partido, mesmo considerando atitudes anteriores. Os resultados sugerem, assim, um circuito: a rejeição ao adversário favorece a certeza da vitória; a derrota inesperada pode aprofundar a rejeição. Esse mecanismo oferece uma hipótese preliminar para compreender o confronto entre lulismo e bolsonarismo: quanto mais a preferência se converte em certeza, maior pode ser o custo subjetivo de perder. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Isso não implica que a frustração produza automaticamente contestação das urnas. Mas a eleição pode renovar o antagonismo que deveria processar. A democracia exige aceitar a possibilidade da derrota. A certeza partidária solapa as bases desse aprendizado. A intensidade da frustração depende do que cada campo acredita estar em jogo. Para além do conteúdo substantivo dos riscos que enxergam com a vitória do adversário, o que há em comum entre os dois campos é a percepção de que representam ameaça existencial. O ciclo de retroalimentação de que fala Warner pode estar em um momento crítico no país e sofrer uma reconfiguração radical. A vitória do bolsonarismo apontará para o fim de uma era marcada pela centralidade de Lula nas disputas presidenciais e coincidiria com o envelhecimento de quem lidera o partido há 46 anos. O ocaso do lulismo enfraquecerá o bolsonarismo: ambos se alimentam reciprocamente. Ademais, há especificidades institucionais que distinguem o caso brasileiro do americano. Como argumentei aqui, a natureza consociativa de nosso desenho constitucional dispersa o poder. A fragmentação partidária cria incentivos à barganha: converte perdedores em quase ganhadores e limita os ganhos dos vencedores. O centrão ampliado conquistou cerca de 47% das cadeiras da Câmara e 39,5% do Senado, e já sinalizou sua autonomia. O vencedor não leva tudo. O imperativo das coalizões atenua o benefício político da vitória. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A polariza��o depois da certeza
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