A intelig�ncia artificial influenciou de forma decisiva as escolhas dos eleitores? SIM

A intelig�ncia artificial influenciou de forma decisiva as escolhas dos eleitores? SIM

No artigo "Decifra-me ou te devoro" (27/9), publicado no caderno Ilustríssima, nesta Folha, Carolina da Costa defende que, diante da inteligência artificial, o pensamento crítico ficou ainda mais relevante: cabe ao usuário interrogar fontes e ponderar evidências para formular boas perguntas e compreender as respostas das máquinas. Proponho recuar mais um passo. O filósofo Bernard Stiegler, recuperando Heidegger, argumenta que analisar a técnica apenas como meio bloqueia a reflexão sobre seus fins, isto é, sobre o que ela efetivamente produz. Sustento que a IA foi relevante nas escolhas eleitorais na medida em que atuam em um plano anterior à escolha: o modo como os eleitores conhecem o mundo sobre o qual decidem. Divido o argumento em dois pontos. Em "Uma nova mudança estrutural da esfera pública" (2023), Jürgen Habermas argumenta que a democracia liberal se ancorava na formação da opinião por instituições como a mídia e a universidade, capazes de extrair de visões de mundo concorrentes um núcleo mínimo de percepções compartilhadas sobre a realidade. As plataformas, orientadas por sistemas de recomendação que maximizam o engajamento, convertido em dados e receita, substituem essa mediação por uma miríade de formadores de opinião sem formação específica nem responsabilidade pelo que propagam. Ao usuário são oferecidos frames, fragmentos do real recortados para reforçar suas identificações prévias, preferências e antagonismos. O sujeito é continuamente agradado, e a realidade que lhe chega é ajustada ao que o mantém conectado. Essa experiência reduz o ceticismo e a capacidade de pensamento crítico. É nesse contexto que a IA generativa se torna decisiva. Segundo os autores de "The Epistemology of Fake News" (2021), aceitamos uma informação quando confiamos na fonte e quando ela é coerente com o que já pensamos. Nas plataformas, os dois critérios se confundem: confiáveis passam a ser as fontes que confirmam nossas crenças. Interrogar as fontes torna-se difícil quando é o sistema de recomendação que as seleciona, e conteúdos falsos deixam de ser identificáveis como tais. A IA generativa barateia sua produção e permite ajustá-los a cada nicho. O segundo ponto diz respeito ao objeto da escolha. As forças que disputam o voto oferecem formas distintas de pensar a IA e as plataformas, em uma disputa que ultrapassa as fronteiras nacionais. Depois de comprar o Twitter, Elon Musk reativou perfis extremistas banidos e afrouxou a moderação. Após a reeleição de Donald Trump, a Meta abandonou a checagem de fatos. Os donos das plataformas demonstram afinidade crescente com uma extrema direita articulada em redes transnacionais. Flávio Bolsonaro (PL) integra essa rede. Na CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora), em março, descreveu o Brasil como "o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado"; aqui, chamou de "decreto da censura" a fiscalização das plataformas pela ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados). Sua posição associa a liberdade de expressão à ausência de regulação e confia à concorrência entre agentes privados a organização do que circula. Na prática, isso deixa aos donos das plataformas o poder de definir o que cada eleitor vê. Lula (PT) defende o oposto. Na ONU, criticou os "tecno-oligarcas" que querem um "neoliberalismo digital, sem regras nem transparência", e atribuiu ao Estado, articulado a fóruns multilaterais, a tarefa de regular as plataformas e a IA. A IA foi relevante, portanto, em duas dimensões. A primeira diz respeito aos conteúdos que ela produz e que, disseminados pelas plataformas, moldam a realidade a partir da qual os eleitores escolhem. A segunda diz respeito à própria escolha: ao votar neste domingo (4), o eleitor decidirá também qual dessas concepções orientará a relação do Estado com essas tecnologias e com aqueles que as controlam. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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