A gente vai continuar morando aqui

A gente vai continuar morando aqui

Quando eu era pequena, ia às ruas com meus pais pedir um Brasil melhor. Eu gostava, era divertido estar ali com eles. Hoje, quando penso no período eleitoral, já sinto um cansaço e acho meio triste ter começado a sentir isso. Fiquei tentando entender o que mudou. Claro que cresci e aquela lembrança é de uma criança, mas o que me incomoda hoje é ver a facilidade com que começamos a brigar uns com os outros. Parece que, em algum momento, esquecemos por qual motivo estávamos discutindo. Era pelo Brasil, não era? Porque eu vejo gente brigando com a própria família, deixando de falar com um amigo e ofendendo uma pessoa que nunca viu. E penso: nós vamos continuar morando aqui, quem votou em um, quem votou no outro, nossos filhos também. Como foi que começamos a tratar isso como se o país pudesse dar certo só para uma parte de nós? Tem uma coisa que me pega muito, que é aquela vontade de dizer "eu avisei". A pessoa está tão empenhada em provar que o outro votou errado que parece quase torcer para alguma coisa ruim acontecer. Mas espera, se acontecer, quem vai viver aquilo? A gente também. Que satisfação é essa que depende de o nosso país piorar? Eu não quero que o Brasil dê errado para eu estar certa. Fico impressionada com a certeza com que algumas discussões acontecem. Às vezes, a gente nem conhece direito as propostas que está defendendo. Gostou de uma fala ou ouviu alguém de quem gosta, foi concordando e, quando vê, já está brigando por aquilo como se tivesse estudado o assunto a vida inteira. Falo "a gente" porque não acho que estou imune, e é justamente isso que me incomoda. Quanto do que eu penso eu realmente parei para pensar? Quanto eu só fui absorvendo, repetindo, porque fazia sentido dentro das conversas que estavam chegando até mim? Eu trabalho com comunicação, sei que uma provocação chama atenção, e fico pensando em como é fácil passar um tempão acompanhando uma briga, querendo saber a resposta, a reação, quem vai falar o quê. Parece que estamos muito envolvidos com o país, mas estamos envolvidos com aquela discussão. São horas da nossa vida ali, e o que entendemos melhor depois delas? Não espero que todo mundo concorde. Eu mesma tenho minhas opiniões e coisas das quais não abro mão, mas queria conseguir discordar sem que isso exigisse desprezar a pessoa inteira. Queria que uma conversa pudesse terminar com "nisso eu não concordo com você" e a vida seguisse, sem precisar transformar alguém em inimigo. Quando digo que estamos no mesmo barco, sei que tem gente muito mais protegida dentro dele, tem quem consiga se preservar de uma crise e quem sinta tudo imediatamente dentro de casa. Por isso mesmo, acho tão estranho ver o sofrimento virar argumento para ganhar discussão. Tem uma pessoa vivendo uma situação difícil que, para outra, virou motivo para comentar: "faz o que você fez agora". Talvez seja disso que eu sinta falta naquela lembrança com meus pais: de olhar para o Brasil e pensar no que eu queria viver aqui. Hoje, parece que somos chamados o tempo todo a pensar em quem precisamos derrotar. Eu ainda quero um Brasil melhor. Quero para mim, para minhas filhas e para as pessoas que nunca vão concordar comigo. A eleição vai acabar e a gente vai continuar morando aqui. Queria que isso pesasse um pouco mais na maneira como estamos nos tratando. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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