A minha educação na Escola Alemã de Lisboa dos anos 80/90 fez com que tivesse lido a maior parte dos clássicos sobre os tempos do nazismo. Uns por obrigação curricular, outros por irresistível impulso. Uma das coisas que sempre me impressionou foi o tema da cumplicidade passiva dos cidadãos. Afinal, como foi possível que os alemães comuns primeiro aderissem à causa sem perceber o que vinha aí (basta lembrar que o partido nazista ganhou as eleições de 1933 e Hitler conseguiu ser nomeado chanceler), e depois desviassem o olhar da barbárie? Nunca esqueci um professor alemão com quem cruzei, que vivia, décadas depois, ainda atormentado com a ideia dos seus pais terem vivido a poucos quilômetros de um campo de concentração. Conseguia ler a angústia nos seus olhos azuis quando se questionava como teriam sido capazes de ignorar todo o horror. Nos últimos anos, dei por mim várias vezes a regressar a essas velhas leituras. A Hannah Arendt e à sua ideia de banalidade do mal, ao fundamental ensaio de Milton Mayer, "Eles Pensavam que eram Livres", que dá a perspectiva de 10 alemães comuns, mas também às linhas de "O Rinoceronte", de Eugène Ionesco. Nesse livro, o protagonista Bérenger assiste a todos os humanos à sua volta transformarem-se em rinocerontes, uma analogia ao nazismo. "Não vou capitular!", grita no final o improvável herói –ironicamente, é um alcoólico desmazelado o último dos resistentes à indecência. Lembro-me hoje de Bérenger quando vejo pessoas que antes tinha como decentes a exibirem comportamentos odiosos e opiniões "bestas". A perderem a vergonha –esse útil fenômeno de regulação social– e a expressarem machismo, racismo, xenofobia, homofobia, desumanização do outro. Nesse tema impõe-se um marco cronológico muito claro: há um antes e um depois da eleição de Donald Trump, em 2016. Foi ele que bestializou a política e que normalizou a indecência, fazendo escola. Muitas vezes me perguntei se acabaria, eu própria, por ceder à tentação de relativizar a imensa repulsa que sentia com essa forma de fazer política, acomodar a indignação e habituar-me à ideia de que são assim os novos tempos. Afinal de contas, há "wannabes" de Trump por todo o lado: Brasil, Portugal, na maioria dos países europeus. E, bem vistas as coisas, o povo norte-americano parece não ter ficado imune à doença da bestialidade, uma vez que voltou a elegê-lo em 2024. Teriam os rinocerontes tomado conta de tudo? As eleições intercalares nos EUA na semana passada desmentiram os piores receios. Os americanos caíram duas vezes na esparrela do extremismo, mas já conseguiram perceber que não era por ali o caminho, por mais desiludidos que possam estar com a classe política. O imenso tsunami azul que saiu das urnas é um repúdio absoluto da vilania de Trump. No Brasil, a vaga que permitiu a reviravolta eleitoral também se deveu à repulsa em relação aos Bolsonaro e à ameaça que constituem para a democracia. Oxalá mais povos possam inspirar-se nessas duas eleições e daqui retirar as suas lições. Mais uma vez se confirma que a democracia liberal e a moderação podem ter muitos defeitos, mas até agora ainda não se inventou nada melhor. Rinocerontes, só nas savanas e selvas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
A derrota dos rinocerontes
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