Quando Flávio Bolsonaro cogitava disputar a Presidência do Brasil, viajou para uma das menores nações da América Latina em busca de ideias. O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, havia transformado o que antes era o país mais violento do mundo em um dos mais seguros, em grande parte prendendo dezenas de milhares de jovens e condenando-os à prisão em julgamentos coletivos. Flávio, filho do ex-presidente brasileiro de direita Jair Bolsonaro, se inspirou no modelo. Algumas semanas depois, em dezembro, lançou sua campanha e adotou uma plataforma que previa a construção de cinco novos presídios de segurança máxima, penas de oito anos de prisão para ladrões de celulares e castração química para estupradores e pedófilos. Em um comício recente, disse aos eleitores: "Estou começando a achar que El Salvador não é suficiente". A influência de Bukele é evidente. Os presidentes da Colômbia, do Equador e da Costa Rica promovem operações repressivas em vídeos de produção sofisticada que lembram os dele. Em Lima, peças de propaganda se espalham por uma rodovia para promover um político que se autodenomina o "Bukele peruano". Dezenas de autoridades latino-americanas visitaram o presídio de Bukele, com capacidade para 40 mil detentos, para tentar reforçar sua imagem no combate ao crime. E oito países têm projetos em andamento para construir seus próprios presídios de segurança máxima. Tudo isso conta com o apoio do país mais poderoso do hemisfério. O presidente Donald Trump é um dos maiores admiradores de Bukele e o apresenta como um modelo para a região. É a chamada "bukelização" da América Latina. O autoritário de El Salvador, muito ativo nas redes sociais, atualizou o arquétipo do ditador populista latino-americano —conhecido na região como ‘caudilho’— para o século 21, com resultados notáveis. Segundo estatísticas oficiais, os homicídios em El Salvador caíram 95% desde que ele assumiu o cargo, em 2019. De acordo com pesquisas de opinião, sua aprovação gira em torno de 90%. "Ele realizou um milagre", disse Steven Levitsky, professor de governo de Harvard que estuda líderes autoritários. "Por isso, os políticos estão reproduzindo seu discurso, seu estilo e seus presídios de segurança máxima", acrescentou. A questão em aberto, porém, é: o que esses líderes realmente conseguirão alcançar e como isso transformará a América Latina? "Tenho quase certeza de que isso vai acabar mal", disse Levitsky. O modelo Bukele Bukele se apoia em tendências de longa data na América Latina. Guerras brutais contra o narcotráfico são travadas há décadas. Desde os anos 1980, os Estados Unidos apoiaram, em sua maioria, governos tecnocráticos que buscavam derrubar chefes do tráfico e interromper as cadeias de abastecimento de drogas. No México e na Colômbia, os governos recorreram a bombas e helicópteros no combate ao narcotráfico, e dezenas de milhares de pessoas morreram. Presidentes autoritários também não são novidade. A história da região registra dezenas deles, de diferentes correntes ideológicas, como Augusto Pinochet, general chileno que esmagou opositores comunistas, e Hugo Chávez, carismático líder populista de esquerda da Venezuela, que mobilizava multidões com longos discursos em comícios de rua. O presidente de El Salvador, no entanto, inovou. Em vez de perseguir os chefes do tráfico, concentrou-se em detenções em massa. Em vez de recorrer a comícios políticos para conquistar apoio, passou a vilanizar seus alvos nas redes sociais. Também promoveu uma tomada autoritária sistemática do poder: suspendeu direitos, concentrou autoridade, afastou juízes, eliminou limites à reeleição e expulsou críticos e jornalistas. O controle absoluto foi essencial para encarcerar tantas pessoas. O desmonte da democracia salvadorenha permitiu que Bukele avançasse com uma repressão sem freios. Seu governo suspendeu direitos constitucionais por meio de um estado de emergência por tempo indeterminado. Com isso, as autoridades deixaram de precisar de mandados de prisão, e os detidos puderam ser encarcerados sem acusação formal. Em seguida, transformou o sistema de Justiça para mantê-los presos, segundo organizações de direitos humanos. Centenas de réus são julgados ao mesmo tempo. Testemunhas anônimas depõem contra dezenas de pessoas em um mesmo processo. A suposta participação em gangues —que Bukele já afirmou poder ser comprovada por tatuagens— pode resultar em penas de décadas de prisão. Ele chegou a alterar a Constituição para permitir a prisão perpétua de crianças de 12 anos. O resultado é que El Salvador tem hoje a maior taxa de encarceramento do mundo. Manuel Meléndez-Sánchez, pesquisador salvadorenho da Universidade de Notre Dame que estuda o modelo Bukele, afirmou que, duas décadas atrás, o presidente mexicano Felipe Calderón promoveu uma das operações repressivas mais intensas da região, segundo a avaliação amplamente difundida na época, prendendo cerca de um em cada mil mexicanos. Nos dois primeiros anos da campanha de Bukele, disse Meléndez-Sánchez, o líder salvadorenho prendeu quase um em cada 80 habitantes do país. Talvez ainda mais impressionantes sejam os resultados. Os homicídios caíram para menos de dois por 100 mil habitantes, ante cerca de 50 quando Bukele foi eleito e 100 uma década atrás. Isso tornou El Salvador mais seguro do que os Estados Unidos. Muitos salvadorenhos dizem que agora finalmente podem sair à noite. O número de turistas está crescendo. Até algumas mães de filhos presos afirmam que houve benefícios. Como resultado, Bukele se tornou o líder mais popular da América Latina, senão do mundo. Com o tempo, também passou a encarnar cada vez mais o papel de um 'caudilho' do século 19: trocou o boné de beisebol por uma espécie de uniforme com detalhes dourados e chegou a exumar os restos mortais de um antigo líder para criar um mausoléu nacional. Na internet, porém, ele continua agindo como o entusiasta do bitcoin de 45 anos que é. Provoca a esquerda e publica vídeos produzidos com apuro, incluindo imagens de detentos de cueca, encolhidos sob a vigilância de agentes penitenciários. Ao disputar a reeleição, mudou sua biografia nas redes sociais de "ditador mais descolado do mundo" para "rei filósofo". Essa persona digital foi fundamental para ampliar sua projeção internacional. Bukele publica com frequência em inglês e tem hoje mais que o dobro de seguidores no TikTok —13,5 milhões— do que a população de El Salvador, de seis milhões de habitantes. Para muitos políticos da América Latina, tornou-se irresistível imitá-lo. Os imitadores de Bukele Na semana passada, a presidente da Costa Rica, Laura Fernández, levou autoridades locais e influenciadores para conhecer o novo presídio de segurança máxima de seu governo. Ela apresentou as grandes celas gradeadas que abrigarão 50 presos cada uma. Bukele, disse ela, não foi apenas uma inspiração, mas também um conselheiro atuante. "Caro presidente Bukele", declarou durante um evento de inauguração da penitenciária, com capacidade para 5.000 detentos. "Envio-lhe um abraço grande e apertado, acompanhado da gratidão e do respeito de toda a população da Costa Rica." Nenhum líder adotou o modelo Bukele com mais intensidade do que o presidente do Equador, Daniel Noboa. Em janeiro de 2024, ele suspendeu diversos direitos constitucionais ao decretar estado de emergência e mobilizou 22 mil militares contra as gangues. Está construindo vários presídios novos, que, segundo ele, certamente agradarão aos "admiradores de Bukele". Também divulgou imagens ao estilo salvadorenho, com presos de cabeça raspada e curvados diante dos agentes penitenciários. A estratégia, porém, não funcionou exatamente como esperado. Em 2025, os homicídios no Equador dispararam 30%, chegando ao recorde de 9.200 casos. A taxa de assassinatos caiu 10% desde então, mas continua ligeiramente acima do nível registrado quando Noboa assumiu o cargo. Uma diferença em relação a El Salvador é que Noboa encontrou limites ao próprio poder. Seu governo realizou quase 58 mil prisões neste ano, mas a taxa de encarceramento do Equador não cresceu nem de longe no mesmo ritmo, pois juízes libertaram muitos dos detidos enquanto aguardam julgamento. Bukele opera sob regras diferentes. "O que realmente define seu modelo e explica os resultados é a inexistência da Justiça", disse Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica. É Bukele, e não a lei, quem "decide quem será preso e quem continuará na prisão". Por isso, afirmou ela, poucos presidentes conseguirão seguir de fato o modelo Bukele. Mesmo reproduzir o sucesso de Bukele sob um regime plenamente autoritário seria difícil, disse Meléndez-Sánchez. Para começar, El Salvador tem a extensão territorial de Massachusetts, o que facilita muito o policiamento em comparação com um país continental como o Brasil —ou mesmo com um país apenas um pouco maior, como o Equador. Mais importante, afirmou o pesquisador, Bukele desmantelou as gangues porque as pegou desprevenidas. Promotores americanos encontraram evidências significativas, anos atrás, de que o governo salvadorenho havia firmado um pacto com as gangues para reduzir a violência e, depois, mudado repentinamente de estratégia para persegui-las. E, embora seus vídeos nas redes sociais sejam fáceis de imitar, isso não significa que sua eficácia possa ser reproduzida. No vídeo gravado no novo meg presídio da Costa Rica, Fernández não demonstrou o charme irônico nem o carisma sombrio típicos dos vídeos de Bukele no TikTok. Meléndez-Sánchez, pesquisador de Notre Dame, disse que os novos líderes latino-americanos provavelmente seguirão um de dois caminhos: atacar a democracia como Bukele fez e, potencialmente, esmagar as gangues como consequência; ou adotar apenas alguns aspectos do modelo, enfraquecendo a democracia sem reduzir de fato a criminalidade. "Seja qual for o caminho, acho que isso terá consequências muito ruins para a violência criminal, muito ruins para os direitos humanos e muito ruins para as instituições democráticas", afirmou. A bukelização da América Latina ocorre ao mesmo tempo que Trump intensifica a ofensiva dos Estados Unidos na região e tenta consolidar o controle americano sobre o hemisfério ocidental. Ele recompensou Bukele e o incentivou publicamente, chegando a brincar que o salvadorenho deveria construir mais meg presídios. Agora, pressiona outros líderes latino-americanos a adotar uma abordagem sem restrições contra os cartéis de drogas, inclusive permitindo que as Forças Armadas americanas participem do combate. A mudança mais significativa provocada por Bukele talvez tenha ocorrido no cenário internacional. Ao oferecer um modelo extremamente popular entre eleitores de países assolados pelo crime, ele ajudou a remodelar o mapa político da América Latina e a acelerar uma guinada à direita.
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